INFELIZMENTE!

Publicado: 26/09/2011 por Professora Déborah em Diversos
O professor está doente
Sabe aquele professor apático, cansado e irritado?

Ele nem sempre foi assim. Ele já foi alguém animado e comprometido com a sua profissão. Ele já foi um profissional responsável e perseverante. Ele já foi idealista e sonhador.

O que terá acontecido no seu percurso que o tornou um profissional tão “apagado”?

          O professor está doente. Excesso de burocracia (fichas avaliativas mensais, bimestrais e formulários para comunicações com coordenadores, para conselhos de classe, etc.), excesso de trabalho profissional em casa (preparação e correção de tarefas diferenciadas avaliativas, trabalhos escolares, provas, testes, planejamentos, projetos, etc.), indisciplina em sala de aula (conversas paralelas, uso de aparelhos MP3/4/5, uso do telefone celular para enviar torpedo e jogos, gritos, etc.), salário baixo (e que não contempla o trabalho extra-classe, especialmente aquele realizado aos finais de semana e nos feriados), violências verbais (broncas na sala dos professores durante o seu descanso), violências morais (comparações entre diferentes níveis de ensino e até entre os próprios professores feitas por coordenadores), exigências de resultados positivos nos boletins pelos pais de alunos e pressão da direção, perseguição de coordenadores e supervisores bisbilhotando as salas de aula, pegando, às escondidas, os cadernos e livros dos alunos para fiscalizar o cumprimento do conteúdo, bombardeio de informações e contra-informações por parte de coordenadores de diversas áreas que precisam “mostrar serviço”, a indisciplina e apatia dos alunos e, principalmente, a falta de reconhecimento de sua atividade são algumas das causas de estresse, ansiedade e depressão que vêm acometendo os docentes brasileiros das escolas privadas e públicas.

“Muitos pais acreditam em tudo o que as crianças dizem e vêm procurar os orientadores para tirar satisfação. Isso é ruim porque, ao menor sinal de deslize, os alunos fazem o que querem. Por isso temos de ser duros. Sem respeito com os professores, é impossível qualquer aprendizagem e a escola perde o sentido.”

(Neide Maria Negrini, 49 anos, professora de português na Escola Pueri Domus, em São Paulo)

          A indisciplina nas salas de aula assumiu tais proporções que muitos professores estão com medo dos alunos. Não se trata da violência que, nos bairros pobres, ultrapassa os muros escolares e ameaça fisicamente os educadores, mas sim de um fenômeno de subversão do senso de hierarquia que ocorre em grandes redes de ensino privadas e também está presente em colégios tradicionais. Uma explicação parcial para essa mudança de comportamento é a seguinte: os alunos ignoram a autoridade do professor porque o vêem como uma espécie de empregado ou prestador de serviços, pago por seus pais. Uma das queixas mais comuns dos professores diz respeito ao sentimento de impotência diante de alunos indisciplinados. Certas escolas agem como se a lógica do comércio – aquela que diz que o freguês sempre tem razão – também valesse dentro da classe. “Os professores estão sofrendo de fobia escolar, antes um distúrbio psicológico exclusivo das crianças”, diz o psicanalista Raymundo de Lima, professor do departamento de fundamentos da educação da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná. (Veja, Edição 1904 . 11 de maio de 2005)

Profissionais de saúde e de educação dão cada vez mais atenção a fatores que afetam a saúde psicológica do professor. Ainda que pouco seja feito em termos de políticas públicas e educacionais para prevenção, acompanhamento e tratamento de casos genericamente classificados como de estresse, pesquisas começam a identificar a origem do mal e a apontar caminhos para mudanças.

Partindo da hipótese de que as condições de trabalho – excesso de tarefas e ruídos, pressão por requalificação profissional, falta de apoio institucional e de docentes em número necessário, entre outras – geram um sobreesforço na realização de suas tarefas, o estudo conclui que os resultados aferidos nas diversas cidades são convergentes e que os professores estão mais sujeitos que outros grupos a terem transtornos psíquicos de intensidade variada.

Um dos problemas mais comuns na atividade de educador é a síndrome de burnout. Suas causas estão na ocupação profissional, principalmente entre trabalhadores que lidam diretamente com pessoas e demandas variadas. É comum entre médicos, enfermeiros, policiais e, é claro, professores.

Vista como epidemia no meio educacional, essa síndrome não é exclusividade brasileira. Estudos na década de 1980 já apontavam altíssima incidência do problema entre os docentes norte-americanos. A síndrome do esgotamento profissional,conhecida como síndrome de burnout,foi batizada nos anos 70. O nome vem da expressão em inglês to burn out, ou seja, queimar completamente, consumir-se.

Entretanto, por estar sendo estudada há relativamente pouco tempo, ainda é difícil avaliar o desenvolvimento do burnout nas diferentes atuações profissionais. De qualquer maneira, as mudanças sociais das últimas décadas – que, para ficarmos no caso brasileiro, alteraram a cultura e os interesses do alunado, aumentaram a violência nos centros urbanos e diversificaram e intensificaram o acesso à informação – entraram na escola e tornaram-se fatores motivadores de estresse entre os professores.

Celso dos Santos Filho é médico residente do setor de psiquiatria do Hospital do Servidor, em São Paulo. Ele diz que atende a um número considerável de professores que buscam ajuda psiquiátrica com os mais diversos transtornos. “Há uma desvalorização gradual do papel do professor. Ele se sente cada vez menos valorizado, o que afeta a prática profissional e a auto-estima”, conta. Tais perturbações deságuam em “dificuldade para ir ao trabalho, insônia, choro fácil”. O médico nota que as reclamações mais comuns desse sentimento de depreciação da atividade apontam para a falta de autoridade sobre os alunos e para a ausência de apoio institucional (da escola) e das famílias dos alunos.

          O professor que desenvolve fobia escolar sente um pavor profundo da escola e da sala de aula, acompanhado de alterações físicas como palpitações e tremores. Os ambulatórios psiquiátricos dos hospitais brasileiros já registraram o aumento dos casos de professores com distúrbios de ansiedade, entre eles a fobia escolar. “O número de professoras que têm procurado atendimento por estar estressadas, deprimidas ou sofrendo de crise do pânico aumentou cerca de 20% nos últimos três anos”, diz Joel Rennó Júnior, coordenador do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher do Hospital das Clínicas de São Paulo. Até meados dos anos 90, esse tipo de distúrbio psicológico era um quase monopólio daqueles professores que trabalham em escolas públicas. Hoje, afeta igual quantidade de educadores de colégios particulares. (Veja, Edição 1904 . 11 de maio de 2005)

Existem dados que balizam a fala do psiquiatra: a Unesco fez, em 2002, uma grande pesquisa sobre o perfil do professor brasileiro. Em uma das questões sobre a percepção que tinham do próprio trabalho, 54,8% afirmaram ser um problema manter a disciplina em sala de aula; 51,9% mencionaram as características sociais dos alunos; e 44,8%, a relação com os pais. Outros pontos críticos estão relacionados com o volume de trabalho e a falta de tempo para preparar aulas e corrigir avaliações. De todo modo, as questões que envolvem relações humanas, que são a essência da educação, demonstram ser obstáculos difíceis para os professores.

    O professor acaba submetido a múltiplas pressões. É seu dever ensinar, impor disciplina aos alunos e, ao mesmo tempo, evitar que a escola perca “clientes”. “Os esforços para passar a matéria equivalem a uma parcela mínima do desgaste físico e mental do professor”, diz Marcos Hideaki Ono, de São Paulo, professor de física durante dez anos. O restante da energia é aplicado para controlar a classe, motivar os alunos e, às vezes, ensinar aos adolescentes princípios morais e éticos básicos. Ono, de 37 anos, conta que não suportava mais a agressividade dos alunos e, recentemente, abandonou o ensino para seguir carreira acadêmica em física. “Nos intervalos das aulas, era comum ver colegas tremendo de raiva ou chorando na sala de convivência dos professores”, diz Ono. Uma de suas colegas pediu demissão depois que os alunos começaram a atirar-lhe moedas, insinuando que ela, por ser negra, era indigente. (Veja, Edição 1904 . 11 de maio de 2005)

“A gente deixa de fazer o trabalho para ficar chamando a atenção de aluno para tirar o pé da cadeira e para fazer silêncio. Isso os pais deveriam ensinar”, revolta-se uma professora da rede pública paulista. “Nas reuniões, os pais dos alunos que não têm problemas aparecem; os que têm, raramente vão.” A psicóloga e professora da PUC-Campinas, Marilda Lipp, concorda com a professora: “As crianças estão mal-educadas. Mas ao mesmo tempo em que os pais desvalorizam os professores, passam a eles a responsabilidade de educar os filhos”.

          Sempre fez parte do desafio do magistério administrar adolescentes com hormônios em ebulição e com o desejo natural da idade de desafiar as regras. A diferença é que, hoje, em muitos casos, a relação comercial entre a escola e os pais se sobrepõe à autoridade do professor. “Ouvi em muitas reuniões com coordenadores o lembrete de que os pais e os alunos devem ser tratados como clientes e, como tais, têm sempre razão”, diz Iole Gritti de Barros, de 54 anos, professora aposentada. Durante 33 anos ela ministrou aulas de história para alunos da 5ª série em colégios particulares de São Paulo. Em algumas escolas, o temor de desagradar aos pais e perder os alunos acaba se sobrepondo à necessidade de impor ordem na sala de aula. A postura leniente com a disciplina explica-se, em parte, pelo número crescente de carteiras vazias. Em cinco anos foram abertas 2.000 novas instituições particulares de ensino fundamental e médio, enquanto a quantidade de alunos permaneceu inalterada. (Veja, Edição 1904 . 11 de maio de 2005)

De acordo com uma pesquisa orientada pelo psicólogo e professor da UERJ, Francisco Nunes Sobrinho, um fator determinante do burnout é a idade do professor. Pelos resultados, educadores mais jovens fazem uso exagerado de “controle aversivo”. “Eles, por exemplo, gritam mais com o aluno para tentar controlar a disciplina. Se o professor ameaça demais, ele também pode criar um clima de estresse”, explica.

   Os pais entregaram a educação dos filhos aos colégios, mas alguns acham exageradas as exigências escolares ou as punições impostas aos indisciplinados. Também se vêem no direito de deixar o filho na escola com atraso ou buscá-lo mais cedo, a pretexto de viajar ou ir ao dentista – como se o horário de estudo não tivesse importância. Sem poder impor regras aos alunos, os professores acabam ficando impossibilitados de fazer aquilo que os pais esperam deles. A escola é um lugar onde as crianças aprendem a convivência em sociedade, com todas as suas regras. Ao perceberem que os pais estão sempre do seu lado, os estudantes ficam com a impressão de que tudo é permitido. “Um aluno chegou a me dizer que não iria fazer o que eu estava pedindo porque, como o pai dele pagava a escola, ele se comportava como queria lá dentro”, diz a pernambucana Sandra Helena de Andrade, professora de português em duas escolas privadas do Recife.. (Veja, Edição 1904 . 11 de maio de 2005).

A deterioração da atividade docente não acontece apenas no ensino público, o privado também sofre de mal semelhante. “A relação entre professor e aluno se transformou em relação professor-cliente”, condena Rita Fraga, diretora do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP). Apesar de trabalhar com profissionais da rede particular do Estado, ou seja, que supostamente figuram entre os mais bem remunerados do país e com uma boa infra-estrutura de ensino disponível, o sindicato nota um aumento do estresse no seu público. Rita avalia que muitos professores são pressionados pelos interesses mercadológicos da escola e, assim, muitas vezes não têm suporte da instituição em situações de enfrentamento com os alunos. “Com medo de perder o emprego, ele se sujeita a esse tipo de situação.”

“Hoje, a punição é cada vez mais rara, tanto na escola como em casa.”

Os pais têm larga parcela de culpa no que diz respeito à indisciplina dentro da classe. É uma situação cada vez mais comum: eles trabalham muito e têm menos tempo para dedicar à educação das crianças. Sentindo-se culpados pela omissão, evitam dizer não aos filhos e esperam que a escola assuma a função que deveria ser deles: a de passar para a criança os valores éticos e de comportamento básicos, diz a pedagoga carioca Tania Zagury, autora do livro Escola sem Conflito: Parceria com os Pais. (Veja, Edição 1904 . 11 de maio de 2005)

Medo de perder o emprego gera submissão de docentes, alerta Rita Fraga, do Sinpro-SP

          A psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Alexandrina Meleiro, demonstra que esse problema de instituições privadas existe nos casos que atende, principalmente de professores do ensino superior: “Em algumas (instituições), os alunos fazem um motim contra o professor e a escola prefere demitir o profissional a ficar do lado dele”, relata.

Entretanto, ela identifica que a maior quantidade de casos está no ensino fundamental. “São professores com problemas somáticos – depressão, ansiedade, às vezes síndrome do pânico – e, em alguns casos, se houve um assalto na escola, por exemplo, depressão pós-trauma”, diagnostica. De acordo com Alexandrina, “entre 30% e 40% acabam desistindo da profissão, o que caracteriza que o problema é decorrente da ocupação”.

O tratamento, segundo a psiquiatra, varia muito. “Dependendo do grau de desgaste, a pessoa pode passar somente por psicoterapia, ser medicada temporariamente com ansiolítico ou antidepressivo e, às vezes, tem de ser deslocada para uma função burocrática ou passar a trabalhar com outros tipos de alunos.”

Não é comum, porém algumas instituições de ensino têm investido na “prata da casa” e orientando os profissionais mais afetados com os “males da profissão” a realizarem exames médicos, terapias e até concedem licenças médicas visando recuperá-los. Muitas escolas mantêm convênios com terapeutas psicólogos, fonoaudiólogos, academias de ginástica e até promovem momentos de desconcentração, espiritualidade, caminhadas e ginástica coletiva. Porém não são todas que se preocupam com o professor!

É o primeiro dia de aula do professor substituto que irá continuar o trabalho do titular de Geografia, licenciado por problemas de saúde. Passado o alvoroço inicial, a turma faz silêncio para ouvir o nome do novo professor e estudar seus gestos, suas estratégias. É uma turma pouco afeita ao estudo, com poucas exceções. Quando caminhava  para seus afazeres para a sala de aula, pareceu-lhe que os corredores daquela grande escola não eram nada animadores para o recém-chegado substituto. Alunos fazendo piadinhas, professores conversando entre si e sem dirigir a palavra ao novato substituto, coordenadores apressados e nervosos, etc. Quando adentrou a sala de aula todos os alunos estavam em pé, circulando despreocupadamente, falando alto, rindo e sem qualquer tipo de compromisso com o trabalho que está apenas começando. Querem falar de outros assuntos, mais próprios e interessantes em sua opinião para pessoas que, como eles, estão em idade para freqüentar o Ensino Médio. Geografia não lhes parece parte integrante dos conhecimentos que necessitam para sobreviver na selva que percebem em seus cotidianos. Romeu, o professor substituto, mal consegue se apresentar, pois é interrompido de minuto em minuto por perguntas sem conexão com o conteúdo e piadas dos alunos. É apenas mais uma entre várias formas de interromper o trabalho que está sendo desenvolvido.

Mal o professor chegou à sala e já apareceram duas garotas pedindo para ir ao banheiro. Notava-se que queriam apenas retardar as explicações e sair para, talvez, usar o aparelho celular. Numa outra aula, quando as primeiras páginas do livro estavam sendo abertas no capítulo sobre formas de relevo e vulcanismo, surgem dois alunos, atrasados, que trazem consigo justificativas que lhes permitem permanecer na aula. Nenhum dos dois tem os materiais apropriados e ainda desrespeitam o professor fazendo gestos grotescos e obscenos pelas costas. Durante as explicações do conteúdo para a prova, já agendada pelo antigo professor, os atrasadinhos demonstram claramente que não tem qualquer interesse pelo que está sendo ensinado e, caso tirarem nota abaixo da média na prova, terão a “segunda chamada” ou a prova de recuperação. Para desestabilizar ainda mais as aulas de Geografia, os jovens desinteressados passam a assistir a aula tendo a seu lado outras pessoas que, como eles, não estão dispostos a estudar e que, da mesma forma como os primeiros, querem ameaçar e boicotar os esforços do Romeu.

Candidato em potencial para uma licença de saúde? Geralmente os profissionais da educação acumulam aulas em outras escolas, fica sobrecarregados de trabalho, em sala de aula e em casa, tudo isso para reforçar o orçamento minguado decorrente da baixa remuneração da classe.

A agitação, típica de uma sala de aula do ensino médio, reforçada pela pressão por resultados e pelas inevitáveis comparações com o professor titular, acarretará um profundo esgotamento do professor substituto levando-o, num futuro não muito distante, a capitular e recorrer à auxílio médico e medicações psiquiátricas.

E aqueles alunos desinteressados? Fizeram provas de recuperação, trabalhos e exames finais, e até foram para o conselho de classe e passaram de ano, felizes e realizados! Vestibular???  Não tem problema… o papai paga a mensalidade daquela faculdade particular!

Anúncios

Deixe sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s